A cirurgia bariátrica e a Covid-19 sob um olhar regional

Com a pandemia e a chegada da Covid-19, a regionalização para discussão da transmissão, diagnóstico e tratamento, nunca foram tão necessários. Para isso, Brasília tem uma realidade impar em vários aspectos quando comparamos com as demais regiões do Brasil. E, na saúde, não seria diferente. Nós temos condições de realizar projetos pilotos na área para serem implantados nas demais regiões do Brasil.

Portanto, meu relato é de uma realidade muito diferente dos ambientes da maioria dos meus pares do CBCD. Falo isso referindo-me ao ambiente público e privado. Como exemplo, até este momento, não tivemos negativa das operadoras ou dos hospitais em relação a realização dos procedimentos eletivos em qualquer doença do aparelho digestivo. No Distrito Federal, o isolamento social foi decretado no dia 11 de março de 2020, quando tínhamos apenas 2 casos confirmados. Naquele momento estávamos com 28 operações bariátricas programadas, todas em ambientes privados, distribuídas em cinco hospitais. Vários profissionais cancelaram suas operações, referindo-se à insegurança em vários aspectos, principalmente em relação à transmissão.

 Estas operações estavam programadas há seis meses, todas com planejamento profissional, pessoal e com suas avaliações já preconizadas pela literatura médica. Neste grupo tínhamos: obesidade severa, Síndrome Metabólica Grave, hipertensos, diabéticos e doenças pulmonares. E, ainda, um novo ingrediente para este momento: o medo de perder o emprego e, consequentemente. o plano de saúde, e assim perder a oportunidade de tratar uma doença grave.  Após a pandemia, precisariam recorrer ao serviço público.

Esta é a realidade dos nossos pacientes em todos os momentos. E a pandemia não causou nenhuma mudança no perfil das pessoas e de suas doenças. Baseando-se neste cenário, mantivemos nossas indicações. Vinte e cinco operações bariátricas por videolaparoscopia foram realizadas, seguindo todos os passos técnicos já consagrados pela prática diária e pela ciência. Além de todos os cuidados instituídos por cada hospital pelo momento vivido.

Um paciente não pôde ser operado por estar em tratamento de erisipela e dois tiveram as operações canceladas pelo hospital, que alegou problemas comerciais com a operadora. Na nossa pequena amostra, realizada sempre pela mesma equipe cirúrgica, não tivemos complicações relacionada à operação ou à contaminação dos nossos pacientes operados, seus acompanhantes ou da equipe médica.

Todos os pacientes estão em acompanhamento pela mesma equipe desde o pré-operatório, o que sempre foi nossa rotina durante os vinte anos que estamos tratando de obesidade mórbida.

 Neste momento, quando estamos falando de voltarmos às operações eletivas para o tratamento da obesidade mórbida, existem aproximadamente 1.300 casos confirmados no Distrito Federal. Ou seja, se a preocupação inicial era com a transmissão, o momento atual é pior e consequentemente os riscos de contaminação pela Covid-19 é maior. Enquanto isso, nesta pequena amostra, observamos que todos os pacientes estão beneficiando-se do emagrecimento, com a melhora ou até remissão completa da hipertensão, diabetes, capacidade respiratória entre outros.

E agora não mais com o fantasma de depender do serviço público para tratar a obesidade mórbida, caso venham a ficar sem a assistência médica privada. Portanto, deveríamos pensar que nossos pacientes continuam com as mesmas necessidades e devemos estar preparados para tratar das doenças relacionadas à nossa especialidade. Mas nunca esqueçamos que temos uma pessoa na nossa frente. Em tempos difíceis como este, precisamos sim estar melhor preparados, mas não deixar de realizar a melhor medicina.